O artista e o alpinista

Assistindo à TV, num canal de esportes, vejo a entrevista de um velho alpinista aposentado à força pela doença de Parkinson.


Um pouco trêmulo, ele se apoia numa pedra mais ou menos da sua altura, semelhante a um totem, e contempla a paisagem montanhosa, agora distante, com os olhos espremidos pelo vento frio e pela nostalgia. Diz-se grato por tudo, e feliz de estar ali.


Não pode mais acompanhar sua esposa nas escalas, e isso lhe deixa desapontado consigo mesmo. Eles se acostumaram a fazer o difícil juntos. Fizeram sempre o que era mais difícil. Hoje o difícil para ele é fazer a barba sozinho, calçar-se sozinho, comer sozinho, e vestir-se sozinho em menos de três horas.


Durante a entrevista, estava distante da sua companheira e das montanhas. Mas, habituado a não entregar os pontos facilmente, ele diz que se essas eram as suas dificuldades agora, eram também as novas montanhas que ele se empenhava em vencer.


Há algum tempo eu tenho visto grande semelhança entre atletas e artistas num ponto específico: o modo como ambos experimentam a relação necessária e individual entre esforço e performance, o modo como ambos lidam com o difícil.


Nada em suas atividades pode ser negligenciado. As suas preparações são constantes e intensas. Mesmo quando não está treinando nem competindo, o atleta está comprometido na manutenção do seu corpo. Mesmo quando não está estudando, praticando ou criando, o artista está comprometido com a manutenção da sua atenção. O atleta está forte, o artista está atento.


Por isso, não existem bom atleta e bom artista esporádicos. Atletas e artistas precisam de um longo esforço para superar uma fração de tempo no caso daqueles, ou alcançar uma nota de significação especial no caso destes. Essa constante convivência com as suas performances lhes habitua ao que é difícil. Artistas e atletas se desinteressam por facilidades. O que eles realizam depende de uma dolorida superação de obstáculos e riscos. Nenhum dos dois contemporiza com a segurança porque ambos sabem que o único caminho de realizar o que pede para ser feito é arriscando tudo.


Isso não significa apenas a quantidade de tempo empenhado, porque outros trabalhos podem, nesse aspecto, ser tão exigentes quanto. O fundamental é a qualidade do que está empenhado no trabalho. No caso da arte e do esporte, a pessoa está diretamente envolvida no resultado. Artista e atleta não empenham essa ou aquela habilidade para fazer uma coisa, mas eles mesmos, corpo e alma. É desse empenho total que decorrem as habilidades. Quando um artista ou um atleta fracassam, têm a impressão de que eles fracassaram por inteiro, não na coisa que fizeram. Nesse comprometimento integral, ambos são muito parecidos.


Mesmo assim, eu nunca dei a devida atenção aos alpinistas. Para dizer a verdade, os via com certa rejeição, como se fossem idiotas arriscando suas próprias vidas para fazer o que ninguém lhes pediu. Mas, ouvindo a fala desse velho alpinista, compreendi que poucos atletas podem se parecer tanto com os artistas quanto os alpinistas. E compreendi como meu juízo era tolo. De fora, parece um trabalho estúpido: um esforço brutal, um risco insano, um mercado restrito, um preço altíssimo, e muito pouco reconhecimento, ou o próprio anonimato, na imensa maioria dos casos. Tudo isso para chegar ao topo da montanha, olhar, e depois descer. Ora, nada muito diferente do que faz um escritor, como eu.


Como eu pude não admirar os alpinistas antes?


Toda a oficina do artista envolve os perigos da escalada. Quanto mais ambicioso o projeto do artista, mais árdua a sua preparação, mais íngreme a subida, mais inédito o caminho, mais fatal a falha.





É comum ver atletas de esportes radicais, ou aventureiros, a explicar que não são doidos, que sentem medo e o enfrentam, que tudo o que fazem começa muito antes numa longa e meticulosa preparação.


Geralmente quem olha a obra de arte não sabe do trabalho que a precede. Se você é o público, não há muito problema nessa ignorância, mas, se você é um artista, não pode ignorar isso porque você não vai conseguir escalar a montanha, perderá a rota de sua navegação, o seu paraquedas não vai abrir, a caça vai te caçar.


Uma vez vi um marinheiro dizer (será que li isso em Melville?) que se conhece um bom marinheiro não pelo que ele faz na tempestade, mas na calmaria. Se ele tiver que improvisar tudo na tempestade, naufragará. Quando faz bom tempo, ele se ocupa da preparação para o tempo ruim. Ele não se distrai na calmaria e é por isso que pode improvisar na tempestade. Artistas fazem isso, sofrem um longo aprendizado, uma árdua preparação, mantêm-se atentos à realidade que os rodeia, a realidade a que pertencem porque eles captam a tempestade quando está tudo ainda calmo.


Escalar a montanha imensa significa machucar os dedos e prestar atenção nos detalhes. Aquele monstro de pedra só pode ser vencido se o alpinista negociar com as suas frestas mínimas.


O artista enfrenta a realidade e a sua obra do mesmo modo, tem uma visão de conjunto, mantém essa visão viva no horizonte, mas prega o olho nos detalhes porque os milhares de metros da sua escalada só podem ser vencidos centímetro a centímetros, frase a frase, traço a traço, acorde a acorde. É sempre um trabalho de músculos e de concentração, de corpo e de alma. Um pouco mais de corpo no caso do alpinista e um pouco mais de alma no caso do artista. Não é irrelevante que o risco de morte seja uma metáfora para o artista e uma realidade para o alpinista.


Mas há, também, uma diferença substancial entre o alpinista e o artista. O alpinista não pode comunicar a sua escalada. Ela lhe pertence inteira, está toda em sua experiência. A paisagem singular alcançada no ápice da escalada é apenas de quem escalou a montanha. O artista, ao contrário, arrisca sua vida para comunicar o que vê lá de cima. A sua experiência não serve para si. Embora tenhamos algumas ilusões a esse respeito, o tal mundo interior do artista não tem nenhuma importância se não resulta em paisagens acessíveis a outras pessoas. Tudo o que o artista faz deve transcendê-lo.


Enfim, o alpinista escala a montanha para chegar lá em cima e ver algo que passa a ser só seu. O artista, diferentemente, faz a montanha e deixa o caminho pronto para que outras pessoas também a escalem, e vejam, com seus próprios olhos, a paisagem maravilhosa ou terrível sem precisar machucar os próprios dedos na pedra.

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